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Por Que Devemos Trabalhar com a Natureza — E Não Contra Ela

  • Marie Urfels
  • 28 de jan.
  • 5 min de leitura

A natureza não precisa ser criada — ela sempre esteve aqui. Descubra por que devemos devolver espaço à natureza e como cidades como Malmö estão provando que, quando criamos as condições certas, a vida retorna por si mesma.


Quando as Cidades Devolvem Espaço à Natureza, a Vida Retorna


Você pode se perguntar por que essa questão ainda é relevante nos dias de hoje. Afinal, falamos sobre transições para a sustentabilidade há mais de uma década. A natureza não deveria já ser uma parte integral da forma como construímos nossas cidades e organizamos nossas sociedades?


E, ainda assim, continuamos vendo cidades lidando — e lutando — para implementar a natureza de maneiras que realmente permitam que os ecossistemas prosperem.

Na era moderna, falamos constantemente em "criar mais natureza" para que nós, humanos, possamos prosperar. Mas seguimos errando o ponto central. Não precisamos criar espaço para a natureza. Não precisamos criar a natureza — ela sempre esteve aqui. Montanhas, rios, campos e pradarias existiam muito antes das nossas cidades. O que precisamos fazer é criar as condições para que a natureza possa prosperar.


A Natureza Estava Aqui Primeiro


Essas palavras ficaram comigo desde que participei do evento da BLOXHUB sobre a Nova Bauhaus Europeia, no encontro de encerramento em Copenhague. Duas arquitetas paisagistas nos lembraram o quão crucial a natureza é — e o quanto ainda falhamos em integrá-la de forma genuína aos planos urbanos, à arquitetura e ao design.

Rikke Gram (Diretora Criativa e Sócia Sênior da Schønherr) destacou que, quando olhamos a partir de uma perspectiva topográfica, "os edifícios são apenas detalhes". A natureza estava aqui muito antes de nós. Cidades e construções são pequenas marcas dentro de um sistema planetário muito maior.


Concordo — mas também quero provocar essa ideia. Porque, embora a natureza seja a grande tela, as cidades continuam sendo forças centrais na transformação não apenas das paisagens urbanas, mas também das rurais e agrícolas ao seu redor. Historicamente, as cidades dependeram de paisagens extrativas — moldando terras agrícolas, florestas, minas e zonas costeiras — para sustentar seu crescimento. Isso nos mostra que o cenário não é preto no branco. Ele é complexo.


Ainda assim, um lembrete permanece: a Mãe Terra é muito maior do que nós. Podemos dominar em números, edifícios e infraestruturas, mas somos pequenos atores quando comparados a oceanos, montanhas e ecossistemas. E precisamos tratar a Terra com cuidado, devolvendo-lhe mais espaço para prosperar.


Devolver Espaço à Natureza


Para transformar verdadeiramente nossas cidades e os sistemas urbano–rurais, precisamos devolver espaço à natureza. Não precisamos controlá-la — a natureza é um sistema próprio, um agente em si. Não estamos aqui para moldá-la; estamos aqui para viver com ela. Até mesmo cidades como Copenhague, frequentemente celebradas como referências em práticas sustentáveis, enfrentam dificuldades nesse desafio, como destacou Mette Skjold, CEO e Sócia Sênior da SLA.


Vista aérea de Malmö, onde uma antiga bacia portuária poluída está sendo transformada em um ecossistema marinho próspero.
Vista aérea de Malmö, onde uma antiga bacia portuária poluída está sendo transformada em um ecossistema marinho próspero.

A Transformação em Malmö


Essa lição é visível em Malmö. Em uma antiga bacia portuária — antes um espaço poluído e sem vida — uma transformação está em curso. Há duzentos anos, aquela área era oceano, antes da expansão do porto e do aterro da terra. Após o declínio da indústria naval no final do século XX, o porto ficou contaminado, tanto em terra quanto na água, incapaz de sustentar vida marinha.


Graças ao trabalho de Michael Palmgren, do Centro de Educação Marinha (Naturum Öresund) e da Prefeitura de Malmö, a mudança começou. O solo tóxico foi coberto com camadas de cascalho, areia e pedras. Em apenas três meses, a erva-marinha (eelgrass) começou a retornar, crescendo lentamente. Nos meses seguintes, cada vez mais vida apareceu, monitorada tanto por Palmgren quanto por pesquisadores da Universidade de Gotemburgo.


O mais notável é que isso aconteceu sem plantio humano ou intervenção direta — nenhuma erva-marinha foi semeada. A única ação foi fornecer as condições básicas: um solo saudável. Em comparação com outros lugares, a vida está retornando às águas de Malmö muito mais rápido do que o esperado. Os pesquisadores ainda não sabem por quê. Mas uma lição já está clara: a natureza não precisa de nós; ela sabe cuidar de si mesma. Não precisamos controlá-la. Precisamos devolver-lhe espaço para que possa prosperar em seus próprios termos.


A questão agora é: como compartilhar esse conhecimento e essas experiências de forma mais ampla? Como possibilitar mais transformações como essa, capazes de ajudar o planeta a se curar e a mitigar as mudanças climáticas?


Transformação Emocional e Cultural


Um aspecto fundamental é reconhecer que a transformação não é apenas técnica — ela é também emocional. Somos guiados por cultura, hábitos e relações. Para mudar nossos hábitos, precisamos nos reconectar com a natureza e com os atores mais-do-que-humanos. Precisamos reaprender como, por séculos, as pessoas viveram ao lado da natureza, em uma cultura regenerativa que tratava a terra e o oceano como parceiros — e não como recursos.


Como chegamos lá? O design pode ajudar. Métodos de design urbano que incorporam som, narrativas e design cultural podem nos ajudar a reconhecer e construir relações com outras vozes que fazem parte dos nossos sistemas urbanos. Mas nós, designers, arquitetos e urbanistas, muitas vezes temos conhecimento limitado sobre o que vai além do ambiente construído. Por isso, precisamos de defensores e embaixadores — do oceano, dos ecossistemas terrestres — que nos lembrem constantemente e falem em nome das espécies cujas vozes não são ouvidas.


Imagine o seguinte: você está à beira do cais, olhando para frente. A princípio, vê apenas a superfície vazia do oceano, a água parada de uma antiga bacia portuária. Mas então, por meio de uma instalação sonora, você começa a ouvir a vida oculta abaixo da superfície. Esse momento gera um senso profundo de pertencimento e conexão.


Um Movimento Crescente


Já existem trabalhos inspiradores em andamento, por meio de iniciativas como o projeto Bauhaus of the Seas Sails, a Década da Alfabetização Oceânica da ONU, e os esforços de muitos profissionais dedicados. Aqui em Malmö, isso inclui Michael Palmgren e as equipes de design da Universidade de Malmö. Energia semelhante pode ser encontrada na TU Delft, com educadoras como Irene Luque Martín (Centering Designing Otherwise) e o Justice by Design Studio, com Irene Luque Martín e Johnathan Subendran — entre muitos outros que contribuem para esse movimento crescente.


No território, vemos iniciativas regenerativas borbulhando. E parece que algo maior está em curso. A regeneração não é uma visão distante — ela já está emergindo. A tarefa agora é amplificar esses esforços, conectá-los entre disciplinas e territórios, e aprender com eles para que possamos transformar nossas cidades e sociedades.


Ao criar as condições para que a natureza prospere, criamos também as bases para futuros mais justos, resilientes e centrados na vida.

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