A crise de saneamento nas praias brasileiras
- Rafael Bonel, fundador da RegeneraCidade
- 28 de jan.
- 3 min de leitura
Uma análise profunda sobre a crise de saneamento que afeta as praias brasileiras, suas causas, consequências e possíveis soluções através do urbanismo regenerativo.

O Brasil é conhecido internacionalmente por possuir praias belíssimas e cheias de vida. Lugares que muitas vezes são cenários de filmes e objeto de desejo por parte da população. No verão, grande parte dos brasileiros se desloca rumo ao litoral para aproveitar férias ou dias de descanso. O problema é que a infraestrutura urbana de muitos municípios litorâneos não lida nem de perto com essa demanda e nós, brasileiros, muitas vezes envergonhados, evitamos falar ou tocar em um assunto que agora se tornou urgente.
Ao andar pelas ruas de Capão da Canoa, praia onde passo vários dias do verão, vejo que a situação chegou a um nível complicadíssimo: bueiros totalmente entupidos e transbordando, causando um mau cheiro insuportável pela cidade e alagamentos em algumas regiões. Na faixa de areia do município, em certos momentos, vemos o esgoto sendo despejado no mar sem nenhum ou pouquíssimo tratamento. Isso tira do sério grande parte das pessoas que moram, alugam ou passam pelo local. Como pode uma cidade que recebe tanta verba de IPTU, proveniente de diversas novas construções imobiliárias, não ter um mínimo controle de saneamento?
Ao analisarmos os dados, vemos que o buraco é mais fundo do que parece e que esses "probleminhas de verão" estão espalhados por todo o território nacional. De acordo com o levantamento nacional de balneabilidade da Folha de S.Paulo (2025), apenas cerca de 30% das praias brasileiras são consideradas próprias para banho em todas as medições ao longo do ano, alcançando o pior índice em mais de uma década.
A classificação da água é baseada na presença de bactérias indicadoras de contaminação fecal, como coliformes, que aumentam em trechos onde há descarga de esgoto não tratado ou má gestão da drenagem urbana. Uma das causas centrais da poluição das praias é o lançamento de esgoto sem tratamento direto no mar. Mesmo com metas definidas pelo Marco Legal do Saneamento para tratar 90% do esgoto até 2033, o Brasil segue bem longe desse objetivo.
A sobrecarga no verão também é uma causa fortíssima. Durante a alta temporada, o consumo de água e a produção de esgoto aumentam significativamente, o que sobrecarrega sistemas que já são muito frágeis. As consequências para a nossa saúde são grandes: a presença de bactérias patogênicas na água aumenta o risco de doenças de transmissão hídrica, como gastroenterites, infecções de pele e parasitoses. Sem contar a péssima imagem que deixamos para turistas internacionais, o que pode gerar impacto na economia local, que em muitos casos é dependente do turismo sazonal.
A solução para a crise do saneamento nas praias não é simples; muito pelo contrário, é complexa e exige um plano com diferentes prazos. No curto prazo, precisamos focar em reduzir os riscos imediatos: ações rápidas, de menor custo, voltadas a diminuir a contaminação agora, mesmo sem grandes obras. Além disso, a população precisa cobrar as autoridades por monitoramento intensivo e resposta rápida. Sem cobrança há relaxo, e onde há relaxo, haverá problema.
Também se faz necessária uma limpeza urbana extensiva e manutenções regulares nos sistemas de drenagem, onde muitas vezes há acúmulo expressivo de resíduos e lixo. A médio prazo, é necessário estruturar todo o sistema, com investimentos moderados e mudanças que começam a alterar o cenário de forma consistente. Ampliação da coleta e do tratamento de esgoto, infraestrutura verde e drenagem sustentável fazem parte dessas medidas. A longo prazo, vejo como solução projetos estruturantes, com maiores custos e retorno duradouro: universalização do saneamento, recuperação de ecossistemas costeiros e planejamentos urbanos adaptados ao clima, entre outros.
Há algo que pode ser feito no curto, médio e longo prazo e que exige pouco orçamento: a educação ambiental. Não adianta grandes projetos serem executados se a população não é educada para cuidar deles e entender como funcionam. Precisamos olhar para a cidade como a extensão da nossa casa; temos que cuidar dela como se fosse o nosso próprio jardim.
Nesse contexto, iniciativas de urbanismo regenerativo têm ganhado relevância ao traduzir conceitos sistêmicos em ações concretas. A RegeneraCidade surge como uma plataforma voltada à aplicação prática do urbanismo regenerativo no planejamento urbano, especialmente em territórios sensíveis, como cidades costeiras. Convidamos gestores públicos, profissionais, pesquisadores e cidadãos a conhecerem a plataforma e fazerem parte dessa construção coletiva, na qual regenerar cidades significa, também, regenerar nossas águas e nosso litoral.



Comentários